"Educação Popular: ontem, hoje e amanhã", uma reflexão de um educador popular.
Definir a Educação Popular é um desafio complexo, dado o seu caráter aberto e fluido. Inspirando-me nas formulações do professor José Francisco de Melo Neto (UFPB), compreendo-a como um fenômeno de ensino-aprendizagem dotado de uma intencionalidade política nítida: a emancipação humana, especialmente daqueles e daquelas que vivenciam processos de exclusão, vulnerabilidade e opressão. Centralmente, daquelas e daquelas que vivem de seu trabalho.
Essa práxis adota como pressuposto fundante, para sua realização, o mergulho na realidade social e o estabelecimento de vínculos humanos autênticos e significativos por meio da convivialidade no e com o território e o contexto de atuação.
É por meio dessa imersão que educadores e educadoras identificam as questões geradoras locais, garantindo que o processo educativo responda diretamente às demandas concretas do território e/ou do contexto. Trata-se de uma construção horizontal, feita com as pessoas, distanciando-se de posturas centradas na transmissão de conhecimentos, tampouco voltadas à imposição de normativas e condutas padronizadas, ditadas tecnicamente, e impostas aos modos de viver das pessoas.
Pela Educação Popular, o papel do conhecimento científico e técnico profissional, sobretudo pela formação da academia, é somar-se às lutas coletivas já existentes para, de forma dialógica, compreender a realidade e formular o que Paulo Freire denomina "inéditos viáveis". Esse processo exige uma participação genuinamente protagonista da comunidade nessa construção, a qual é, necessariamente, fluída e dinâmica, conflitada por diferentes dimensões e elementos agregados pela profunda complexidade do mundo mesmo.
Nossa compreensão sobre essa dinâmica somente se materializa com a experiência concreta que possamos estar desenvolvendo no concreto vivido, ou seja, no cotidiano e nos territórios da vida. Ou seja, apenas aprende-se Educação Popular quando se desafia, efetivamente e afetuosamente, a construir a Educação Popular.
Minha aproximação com a Educação Popular ocorreu na graduação em Nutrição na UFPB, por meio da extensão universitária, junto à comunidade Maria de Nazaré e ao Projeto Educação Popular e Atenção à Saúde da Família. Inicialmente, como estudante de Nutrição no início do curso, questionava minha capacidade técnica de intervir. Mais do que isso, questionava a utilidade mesma de qualquer iniciativa minha junto àquela realidade. A falta de conhecimentos técnicos apurados fazia sentir-me, de certo modo, "inútil". Contudo, a imersão comunitária revelou que as demandas de saúde e alimentação emergem da própria complexidade da vida cotidiana (relações familiares, moradia, vulnerabilidades sociais) e não da patologia isolada.
Recordo-me de certa ocasião onde uma moradora que acompanhava, e que estava com hipertensão e diabetes, me solicitou uma conduta dietética. Mesmo sem ter cursado a disciplina de dietoterapia na época, a demanda concreta me impeliu a buscar o referencial científico junto a docentes e à literatura para mediar, junto com minha companheira de comunidade, as soluções para suas necessidades e demandas. Procurei a ciência para colaborar com a construção de um viver melhor e com mais dignidade junto com aquela senhora a quem tanto admirava e com que já tecia um forte vínculo humano.
Esse episódio ilustra a produção do conhecimento científico mobilizada pelas demandas reais da sociedade — um alinhamento epistemológico que a Educação Popular viabiliza com excelência.
Historicamente, a instituição acadêmica se consolidou a partir da negação do saber popular, negligenciando o que Paulo Freire denominou como "saber de experiência feito". A experiência é o fundamento da nossa trajetória civilizatória; a humanidade evoluiu substancialmente por meio de vivências sociais e históricas, aprendendo com os próprios erros e refinando suas práticas coletivas. Portanto, relegar a experiência a um plano de menor relevância é um equívoco epistemológico contemporâneo.
Contudo, é fundamental ressaltar que o saber empírico não é infalível nem detentor de uma verdade absoluta. Ele deve, necessariamente, submeter-se ao crivo da crítica e da autorreflexão. Nesse cenário, reside o papel essencial da academia, ajudada pela concepção da Educação Popular: mediar a análise crítica da experiência sem desestruturá-la, mas sim identificando e lapidando suas potencialidades para que ela seja significativamente potencializada.
Cada vez mais, nos últimos anos, muitas pessoas têm procurado a Educação Popular, ou mesmo se inserido em diversas práticas, movimentos e iniciativas nessa sentido. Venha você também conhecer, aprender, propor, criticar, somar, diversificar e pintar com cores vivas, e com muita mobilização, esse empolgante e instigante campo teórico, ético, político e metodológico de experiências educativas.
Embora antiga, e remontando, de forma mais estruturada e sistematizada, desde os anos de 1950, especialmente na América Latina, tendo como referencia central Paulo Freire, mas também muitos outros autores e outras autoras, do campo acadêmico e dos movimentos sociais, a Educação Popular ainda tem provocantes interfaces, diálogos e bons conflitos para travar em diferentes áreas e temáticas. Desafie-se também a pensar nosso campo e, com isso, propor novos horizontes e possibilidades para as lutas sociais dos movimentos populares e para a humanização e criticidade das políticas públicas, na defesa intransigente da democracia na capilaridade mesma de nossos territórios e espaços de ação educativa, social, cultural e política.
- Pedro José Santos Carneiro Cruz
Departamento de Promoção da Saúde, CCM e PPGE/CE/UFPB.
Observatório de Educação Popular em Saúde e Realidade Brasileira
Grupo de Pesquisa em Extensão Popular (EXTELAR)/NUPLAR/PROEX/UFPB
11/06/2026










